Indomável
Cap. 04
Fiquei admirando aquela bela mulher, sob o foco de uma luz fraca, seu rosto eu não via, devido ao seu cabelo que caia sobre a mesma. O cabelo não era grande, chegava até o peitoril dela.
O delegado ficou olhando também e logo colocou sua mão em meu ombro:
- Faça com que ela fale!
Eu nem sequer o olhei. Henrique era um excelente delegado, mas quando queria algo, se tornava o ser mais insuportável do mundo, igual a um cão com um osso em sua boca, contudo, era o emprego dele, e ele fazia o máximo que podia.
Fui a passos lentos rumo à porta que dava para a saleta de interrogatório, antes de entrar olhei para Henrique e pedi para que ele me trouxesse um café. A resposta que ouvi fora “vou tentar arrumar algo” e isso me enfureceu por dentro, entretanto, me contive e abri a porta...
Ela rangeu... Coloquei meu rosto adentro sem entrar com meu corpo... Ela me olhava... Fora surreal o que eu avistei... Ela nutria olhos similares a jabuticabas, grandes, arregalados na verdade, e negros, apesar deu me lembrar dela nas revistas com um olhar fenomenal verde. Alice parecia como um cachorrinho com o rabo entre as pernas, acuado pelo dono que gritou, isso em seu olhar, meus caros, pois quando fui entrando, ela me pareceu mais um animal pronto pro abate de sua presa.
Seu cabelo estava totalmente mal arrumado, despenteado ao extremo, parecia ter vida própria, e ainda sim, naquela luz fraca, era vistoso, belo. Era loiro, mas tinha algumas mechas negras, fantásticas e bem chamativas, apesar de ser minoria em sua cabeleira.
Seu corpo parecia tremer... Ou era eu que estava tremendo?... Ela parecia suja, mas a luz fraquíssima também não ajudava em nada. Me contive com o corpo dentro da sala e fiquei a olhando, e ela a mim, como se duas espécies diferentes e totalmente distintas se encontrassem pela primeira vez, e uma tivesse medo do ataque da outra.
Abri um sorriso leve, amistoso. Tinha que ter cautela, meus sentidos estavam atentos, minha mente a mil, era hora de começar.
- Olá. – Falei com uma voz fraca, que eu achei naquela hora que não era minha.
Ela por sua vez, se limitou a abaixar a cabeça e retomar o desenho que estava fazendo...
Bom sinal...
Porém, um sinal começou a chiar em minha mente, como uma mosca que voa perto de você querendo pousar, e eu pude perceber que ela me estudava também...
Ela ficou por algum tempo desenhando, e eu na defensiva a observando atentamente. Até que repentinamente ela ergue sua cabeça para mim, com uma face sem demonstrar sentimentos, um olhar vazio, disse:
- Sente-se. – A voz era fraca, gelada, doce e serena, todavia, ao mesmo tempo era como uma barra de ferro sendo manejado por um lutador de boxe. Eu não esperava que ela me olhasse, muito menos que falasse, e após falar, instintivamente e sem querer também, recuei um passo para trás, contudo, como ela não parava de me olhar cedi. Sentei-me.
Fiquei calado, e ela novamente abaixou sua cabeça e passou a desenhar. Ótimo, sou um psicólogo que mal sabe iniciar uma conversa, pensava eu, irritado comigo mesmo, neste instante me lembrei de minhas aulas na faculdade de como abordar os pacientes. A olhei mais uma vez. E o que era aquilo? Parecia que ela sorria, mesmo desenhando. Será que era por causa do desenho? Ou por mim? No fim descobri o que era, e praguejei a má iluminação daquela saleta.
Sem perceber a sala de interrogatório se tornara em uma sala de terapias. E eu mal sabia... Aquela terapia seria tão frutífera para o meu trabalho, quanto para Alice.
A sala permanecia tensa, uma névoa invisível pairava sobre nós, eu mal pensava direito. Ou melhor, pensava... E muito.
Ela por sua vez, parecia uma criança a desenhar. Até que eu resolvi, por fim, falar e ver o que iria acontecer...
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