quarta-feira, 9 de março de 2011

Novela

Indomável

Cap. 02

            O local era apertado, bendita saleta, bendita faculdade por não ter nenhum outro lugar que nos acomodasse e que tivéssemos privacidade, bendito dia em que pela manhã me olhei no espelho e disse comigo mesmo “esse dia será emocionante”. É bem verdade que quando eu me recordo destas coisas, fico sem respostas, fora algo tão confuso, que até hoje minha vã mente não solucionou, entretanto eu me alegro ao lembrar. Mas vou parar de falar por aqui, creio que estão curiosos para saber o que aconteceu.
            - E o que o Henrique quer comigo? – Perguntei hesitante, mas com um olhar tão disposto a aprender quanto o de um garoto desejoso por mais de uma aula em que ele ama.
            - Como já lhe disse senhor, o chefe almeja pela sua presença na delegacia, é de suma importância a sua presença lá.
            - Mas para que ele me quer lá?
            Ele me fitou por um longo momento com seus olhos criteriosos. Parecíamos dois colegiais aprontando alguma coisa na escola, e ninguém poderia ver-nos, estávamos em posições desconfortáveis, e no instante em que Mateus aparentou começar a falar, um rodo caiu passando seu cabo no espaço que havia entre a minha cabeça e a do policial a minha frente. Ele soltou um longo e cansado suspiro, e eu mais que depressa arrumei o rodo da forma que estava nesse meio tempo o conhecido começou a falar:
            - Uma desvairada chegou à delegacia dizendo que tinha uma coisa a nos revelar. Ela é muito estranha, assustadora, na verdade. E tem uma aparência horrível, apesar de ser muito bela. Ela disse que nada falaria até que a deixássemos pintar alguma coisa, então lhe demos papel e caneta, mas ainda sim, ela se negou a falar. Nessa hora o chefe viu uma matéria sobre a sua palestra aqui na faculdade e me mandou vir buscá-lo imediatamente... Creio que o delegado poderá explicar as coisas de uma forma mais clara a você Francisco, contudo, venha comigo.
            Eu arregalei meus olhos, sem perceber e ele me olhou de uma forma estranha, o que me fez reparar em minha face e me ajustar.
            - Mas, ainda não entendo o porquê da minha presença ser requisitada.
            - Nem eu senhor. Contudo, vamos lá e você saberá melhor das coisas.
            - Tudo bem. – Disse eu depois dum demorado momento meditando.
            Saímos da sala e fomos imediatamente para o carro de polícia que nos esperava na entrada da faculdade, com um policial a nossa espera no volante. Fomos depressa para a delegacia. No meio do trajeto, pude perceber que Mateus estava inquieto, se revirando no banco do passageiro a todo instante. E toda vez que parávamos em um farol, ele praguejava algo ininteligível, que por mais que eu me esforçasse, não era possível de se entender.
            Ir até a delegacia não demorava muito, todavia havia um trânsito imenso do local da palestra até a delegacia, e por mais que o motorista corresse não chegaríamos tão cedo na delegacia. E isso fez com que o policial que viera me buscar, não parasse de se remexer, de se coçar, entre outros sinais mais de inquietação, que pra mim, um psicólogo, não passa despercebido de jeito nenhum. Seu companheiro permanecia impassível, quieto, atento no trânsito.
            Por fim, não agüentei mais vê-lo daquele jeito, e inclinei meu corpo no banco dele, e perguntei de forma calma e pausada:
            - Está tudo bem Mateus?
            - Claro que está. – Disse ele e em seguida houve uma freada do carro por causa dum novo farol vermelho, o que lhe fez gemer um “merda”.
            - Por favor, Mateus, conte-me o que está acontecendo. – Insisti, esperando conseguir algo dele.
            Ele se virou para me olhar, e assim o fez por uns longos segundos, até que seus olhos se fecharam e como uma rajada ele falou por fim:
            - A mulher que chegou à delegacia, é filha do falecido doutor Arnaldo.
            Mateus se virou para frente e continuou como antes, mas eu mal o notava, me recostei no banco traseiro e minha mente viajou para longe dali.
            A filha de Arnaldo, um falecido advogado, renomado na cidade, se chamava Alice, que eu me lembrava de ter lido algo no jornal sobre ela, algo dela ter sido roubada, mas fazia tempo, e minha mente era traiçoeira. Por isso, coloquei minha mente para trabalhar. A cada instante, o caso se revelava mais assustador, e se tornaria ainda mais.
           

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