Indomável
Cap. 03
Enfim, chegamos à delegacia, poupar-vos-ei na descrição da mesma. Ao descermos do carro, Mateus pediu para que eu o seguisse, e assim o fiz. O acompanhei pelos corredores do local, com as mãos nos bolsos da minha calça, aparentando ser um jovem atento ao novo, a fim de descobrir o que ocorria, enquanto o meu guia, quase corria, delegacia adentro.
Chegamos a uma sala, com uma imensa porta envernizada, e possuía uma placa com o dizer “Delegado”, mal tive tempo de apreciar a placa, pois o policial já adentrava na sala, e eu, tímido, também entrei a passos lentos, o oposto de Mateus.
Henrique estava virado, em sua cadeira giratória, para a janela de sua sala, que mostrava de uma forma bem estratégica, grande parte da avenida, onde a delegacia se achava. Parecia absorto em seus devaneios, com os cotovelos apoiados no encosto da cadeira, e as mãos entrelaçadas em frente a sua boca.
Sem que eu ou Mateus falássemos algo, ele fez uso de sua voz grave e ao mesmo tempo macia para falar conosco, principalmente, a mim, sem se virar de sua poltrona, ou cadeira, enfim, de seu assento:
- Até que enfim chegaram senhores, mas observo que hoje o transito – como em quase todos os dias- está um tremendo caos. Espero que o senhor esteja a par da situação senhor Francisco, todavia, se isto ainda não aconteceu, sente-se na cadeira a sua frente e começarei a narrar o que sucedera... Enquanto a você, Mateus, vá observar se a garota precisa de algo.
Mateus sem dizer um “A” saiu da sala e eu, relutante comigo mesmo, me assentei na cadeira a minha frente, não era muito macia, mas ainda sim, deu para que eu me afundasse nela. Eu via o reflexo do rosto de Henrique pela janela, e ele também me observava, então repentinamente ele se virou, com sua cadeira, e se pôs a me fitar.
Era um homem de seus quarenta e três anos, olhos cheios de confiança, mas ao mesmo tempo, com muita desconfiança. Tinha uma face de raposa, enganadora e seu comportamento, se assemelhava ao de uma cobra, prestes a dar o bote.
Ele me olhou por longos, trinta segundos, e logo perguntou repentinamente, o que me fez sobressaltar:
- O que sabe sobre o caso?
- Bom... Eu sei que se trata de Alice, a filha do já falecido Arnaldo, mas o que necessariamente eu não sei do que se trata...
Ele continuou a me olhar e logo abaixou a cabeça, como se tentasse se ver e por fim murmurou:
- Eu também não...
A frase vagueou pela sala, e a cada instante eu ficava mais e mais curioso para saber o que estava ocorrendo.
- Ela chegou aqui, a poucas horas... – Disse Henrique por fim, sem me olhar, mas fitando o horizonte. – Disse que tinha algo a nos revelar, mas seu jeito mostrava que ela estava assustada, e não predisposta a fazer uma revelação, parecia que ela queria mais uma ajuda do que qualquer outra coisa nesse mundo. Eu tentei interrogá-la, mas ela disse que só falaria depois de desenhar, e desde então, não parou mais, e não tiramos uma palavra se quer dela. Por isso, mandei chamá-lo, o senhor é mestre em desvendar mentes, e é o que precisamos. E pelo estado dela, creio que a coisa é gravíssima, então, se não for lhe incomodar, gostaria que você fosse vê-la imediatamente.
- E assim o farei... – Retorqui, entretanto, não entendendo o caso direito. – Onde ela está?
O delegado me olhou pelo canto de seus olhos e se levantou, sem dizer uma palavra. Eu o segui...
Eu admiro até hoje o profissional que o delegado Henrique fora um dia, ele era esperto, e pra precisar de minha ajuda, é que ele, em plenas faculdades mentais, não encontrara uma solução para o caso,e ao pensar isso, o acompanhando, me arrepiei, contudo foi por pouco tempo, pois chegamos a um local, com um vidro a nossa frente, mostrando uma sala toda escura com uma luz muito fraca pegando o rosto de uma jovem.
Ao olhar aquela cena, estremeci. Uma garota desenhando sobre uma pequena mesa, os cabelos desarrumados, presa ao que fazia sem se dar conta de onde estava. Eu comecei a fita-la de forma minuciosa, mas não conseguia chegar a nenhuma conclusão.
Aquela mulher... Era Alice.
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