domingo, 19 de agosto de 2012

Verso em Prosa


A Ti

      Eu poderia invocar clamando auxílio às Musas para esse momento, pois é assim que todo bom e fantástico escritor do período Homérico e de seus predecessores, Hesíodo, por exemplo, o faziam. Todavia, essas tolas mulheres, deusas, nada fariam de pleno, pois a ti nem as melhores palavras diriam quem és, o quão fantástica és, o quão sublime. Nem o mais belo canto delas entoaria, e outra, já não existem...
         Se já não existem, então seria a maior heresia do mundo afirmar que és filha de Afrodite... Se fosse para ser filha de um dos deuses, seria em parte de Athena, mas na verdade, de Hefasto, o deus ao qual todos os outros necessitam. É ele o mais sublime, o construtor e destruidor. O coxo, o estranho, mas aquele que lhe reflete bem, por mostrar que não é perfeito, nem belo, mas inestimável, imprescindível e inesquecível.
         Poderia mencionar a filosofia, mas Pascal já define esse momento tão belamente, e ao mesmo tempo não define nada, mostrando que toda e qualquer filosofia é errônea nesse conceito: “O coração tem razões, que a razão desconhece”. Então se eu clamasse pela razão, seria o cão bastardo do léxico e consequentemente do pensamento poético...
         Poesia, essa sim me fez rir, e rir de prazer por achar talvez uma resposta certa. É a ti a quem recorro para tentar falar o mínimo da garota de olhos verdes. A ressaca de Capitu, já não está aqui, perdera, para uma docilidade animal. O ardor de Rita Baiana esvaiu-se diante de ti. A inteligência de Carmem, passara longe, pois a tua és a verdadeira primazia. E por fim, Frida, que não é dona de uma beleza surpreendente, mas de uma perspicácia digna de nota, entretanto, nem ela é capaz de saber lidar contigo...
         Mas oh céus, eu fui para a prosa sem perceber... Como sou tolo, vamos aos poetas: e começaremos por ele... Camões o homem que dizia amar, que descreveu o amor como a coisa mais ambígua que existe, que é tudo e ao mesmo tempo é o nada, é o silêncio e o grito, é a euforia e a tristeza. Mas eu não quero usá-lo, em conta de sua poesia, ele deixou sua amada partir, e não partir no sentido de “ida a outro lugar”, mas sim que ela caísse morta.
         Vamos a Shakespeare, que apesar de deter-se mais no campo do teatro, suas peças ainda sim eram verdadeiras poesias em cena. E em dada personagem ele coloca a fala, que em linhas gerais quer dizer “Duvide de tudo, menos que o amo”, eu poderia tomar essas palavras, você também poderia, mas se a tomássemos como nossa, certamente o nosso ser múltiplo não deixaria que essa verdade acontecesse.
         Ah, que porcaria, falei, escrevi, pensei, me martirizei, para dizer algo belo a teus olhos, pois é só eles que me importam neste instante, e pra ser franco eu não disse nada de útil até agora. E certamente, embora me esforce nada conseguirei... Já não desejo escrever mais sobre isso, pelo simplório fato de que ao falar de ti meu léxico, que não é bom, seca-se, some, porque diante de ti eu perco minhas palavras e ponho-me a contemplá-la, como uma criança que ama aquele seu melhor brinquedo, que por ele faria o impossível, e tornaria possível somente para ter o brinquedo consigo para a eternidade. Termino aqui, a escrita, porque pensar, isso nem os seres mais sagazes de todo o mundo, nem céu, nem terra e nem mar, conseguem fazer com que eu pare, somente você pode fazer isso, pode fazer tudo em mim parar por segundos, soltando suspiros diante de tua presença. É a ti esse texto tolo, é a ti minhas palavras, é a ti que  meu coração pulsa, embora não seja eterno e nem a todo momento, ainda sim, é com toda a intensidade que podes imaginar.

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