A
Ti
Eu
poderia invocar clamando auxílio às Musas para esse momento, pois é assim que
todo bom e fantástico escritor do período Homérico e de seus predecessores, Hesíodo,
por exemplo, o faziam. Todavia, essas tolas mulheres, deusas, nada fariam de
pleno, pois a ti nem as melhores palavras diriam quem és, o quão fantástica és,
o quão sublime. Nem o mais belo canto delas entoaria, e outra, já não
existem...
Se já
não existem, então seria a maior heresia do mundo afirmar que és filha de
Afrodite... Se fosse para ser filha de um dos deuses, seria em parte de Athena,
mas na verdade, de Hefasto, o deus ao qual todos os outros necessitam. É ele o
mais sublime, o construtor e destruidor. O coxo, o estranho, mas aquele que lhe
reflete bem, por mostrar que não é perfeito, nem belo, mas inestimável,
imprescindível e inesquecível.
Poderia
mencionar a filosofia, mas Pascal já define esse momento tão belamente, e ao
mesmo tempo não define nada, mostrando que toda e qualquer filosofia é errônea
nesse conceito: “O coração tem razões,
que a razão desconhece”. Então se eu clamasse pela razão, seria o cão
bastardo do léxico e consequentemente do pensamento poético...
Poesia,
essa sim me fez rir, e rir de prazer por achar talvez uma resposta certa. É a
ti a quem recorro para tentar falar o mínimo da garota de olhos verdes. A
ressaca de Capitu, já não está aqui, perdera, para uma docilidade animal. O ardor
de Rita Baiana esvaiu-se diante de ti. A inteligência de Carmem, passara longe,
pois a tua és a verdadeira primazia. E por fim, Frida, que não é dona de uma
beleza surpreendente, mas de uma perspicácia digna de nota, entretanto, nem ela
é capaz de saber lidar contigo...
Mas oh
céus, eu fui para a prosa sem perceber... Como sou tolo, vamos aos poetas: e
começaremos por ele... Camões o homem que dizia amar, que descreveu o amor como
a coisa mais ambígua que existe, que é tudo e ao mesmo tempo é o nada, é o
silêncio e o grito, é a euforia e a tristeza. Mas eu não quero usá-lo, em conta
de sua poesia, ele deixou sua amada partir, e não partir no sentido de “ida a
outro lugar”, mas sim que ela caísse morta.
Vamos
a Shakespeare, que apesar de deter-se mais no campo do teatro, suas peças ainda
sim eram verdadeiras poesias em cena. E em dada personagem ele coloca a fala,
que em linhas gerais quer dizer “Duvide de tudo, menos que o amo”, eu poderia
tomar essas palavras, você também poderia, mas se a tomássemos como nossa,
certamente o nosso ser múltiplo não deixaria que essa verdade acontecesse.
Ah,
que porcaria, falei, escrevi, pensei, me martirizei, para dizer algo belo a
teus olhos, pois é só eles que me importam neste instante, e pra ser franco eu
não disse nada de útil até agora. E certamente, embora me esforce nada
conseguirei... Já não desejo escrever mais sobre isso, pelo simplório fato de
que ao falar de ti meu léxico, que não é bom, seca-se, some, porque diante de
ti eu perco minhas palavras e ponho-me a contemplá-la, como uma criança que ama
aquele seu melhor brinquedo, que por ele faria o impossível, e tornaria
possível somente para ter o brinquedo consigo para a eternidade. Termino aqui,
a escrita, porque pensar, isso nem os seres mais sagazes de todo o mundo, nem
céu, nem terra e nem mar, conseguem fazer com que eu pare, somente você pode
fazer isso, pode fazer tudo em mim parar por segundos, soltando suspiros diante
de tua presença. É a ti esse texto tolo, é a ti minhas palavras, é a ti
que meu coração pulsa, embora não seja
eterno e nem a todo momento, ainda sim, é com toda a intensidade que podes
imaginar.
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