Eles
E quem os visse, jamais imaginaria
que deles prouvesse um casal. Ou até podem, contudo um casal bem turbulento,
errante, e que dali, o que irá prover de bom?
E lá estão eles, sentados nos degraus
de acesso da casa da menina, esta pequena, de olhos grandes, inquisidores,
faiscantes, fascinantes, olhos que o menino se derretia. Ele por sua vez, ah,
falar da figura masculina é uma decadência. Enfim, estavam sentados, naquela
escada que é íngreme, mas de degraus singelos, que mal dava para que eles ali
se assentassem.
Os dois pareciam tristes, e isso se
deve a uma porção de motivos, dos quais este ser ignóbil que escreve tenta
dizer, mas que sabe que não terá o real êxito.
O primeiro motivo: Erasmo de Roterdã, ao criar com maestria seu “Elogio
da Loucura”, mostra que as melhores ações provem dela, a Loucura, sendo assim,
tudo o que provém do Amor, e de seus derivados, e aos olhos humanos parecer
Louco, é uma dádiva. Assim um casal como o mencionado anteriormente, que não é
esperado por ninguém, é totalmente bem aceito pela Loucura, sendo até gracejado
por esta. Pois a discordância do mundo, mostra a concordância dos céus.
O segundo motivo: Goethe, um
precursor do Romantismo no mundo, nos mostra que o Amor é insano, é de dos
lugares dos quais sequer se imagina. Isso ele mostrou, mas antes Shakespeare
fez com grandessíssima maestria, seguido também, esse depois de Goethe na
história, por Camilo Castelo Branco. Autores que escrevem sobre o amor e que
todo escrito é pouco e que sequer prova algo, só prova que falta muito.
O terceiro motivo: Se sentiam
tristes porque tinham um ao outro, mas faltava à formalidade do namoro, e isso
os entristecia, mas ali na escada, era um pouco pequeníssimo.
E porque complicamos tanto assim
nesse jogo que é a vida? É tão mais simples...
E lá estavam eles. Em silêncio, de
mãos dadas, que é o sinal mais perfeito, sublime e divino de que o amor é algo
surpreendente, encantador, e sem igual.
Eles viviam o novo: a garota, não
sabia que podia sentir aquilo, era diferente, o medo da perca, o medo de que o
menino se apaixonasse por outra, ou a largasse porque ela fora aquela que disse
“sim” e num momento sem sequer se refletir. Aquele “sim” que mudou tudo, que os
fizera felizes e sonhadores. Ela tinha medo em seus olhos, ao fitar o vazio ela
tentava prever o futuro, e por mais que o agouro viesse consigo, ela não se desprendia
da ideia de um futuro junto com ele...
Ele... Oh céus, como é tolo, pensava
naquele gesto que são as mãos dadas, ele nunca pensara antes em ser amado, e
essa ideia quando veio de encontro a si, lhe causou choque, ele não soube lhe
dar com aquilo. Sempre fora o desprezado, mas agora tudo era diferente, ele se
sentia forte, vigoroso, ridículo, como todo apaixonado, mas será que ele era
mesmo um apaixonado? A priori não, mas ali naquela escada, naquele dia, ele
descobriu que era um enlouquecido pela garota que estava com ele. Ele não sabia
lidar com o amor que lhe foi oferecido, mas ele abraçou isso com tanta força,
que ele se sentiu o garoto mais realizado do mundo.
Já não nos cabe julgar esses dois...
Eles são o nós de verdade, o nós do povo, o nós que se perdeu, o nós da
singeleza e delicadeza, elementos tais que o Amor sempre requisitou, mas que o
mundo hoje mal consegue ver isso. O nós deles, é diferente do nós universal, é
um nós atemporal, é um nós que não se materializa com a presença deles no mesmo
local, mas é o tempo todo materializada. O nós deles tem força, força pra
viver, pra voar, pra ser livre de tudo o que tentam dizer. O nós deles, é
chamado pelos gentios de AMOR, pois eles são a matéria bruta desse sentimento
universal mal interpretado. E não cabe a ninguém falar um A, pelo fato deles já
não pertencerem a ridicularização da qual a sociedade embarcou atualmente.

