Mal
Ele andava com o passo apertado. Quem o visse na rua o acharia um estranho, pois ele olhava para todos os lados a todo o momento. Demonstrava nervosismo, contudo, em São Paulo ninguém se importa com ninguém, assim ele nem era notado.
Seu nome é Itamar. Jovem com 29 anos, sem muita coisa que lhe chame a atenção, como todos os homens dessa idade.
Ele aparentava um nervosismo frenético. Onde foi que tudo aquilo começara? Sim, ele estava preocupado. Talvez preocupado nem fosse o termo, até porque esta é sua natureza. Sempre fora assim, porque mudaria agora? Mas a situação em que vivia o fazia ficar pior do que sempre fora...
Pode-se dizer que Itamar é um rapaz prudente, sempre com um pé atrás. Na verdade, e esta é a verdadeira verdade, é um medroso, Sempre cauteloso, mas isto por temer. Temer a tudo e a todos...
Começara em sua infância, por medo de seu pai, um gorducho, rechonchudo que amedrontava a criança com seus berros guturais. E assim, fizera Itamar crescer com medo do mundo...
E neste dia não fora diferente. Andava com o passo apertado. Mas quando aquela situação ridícula começara? Ele já não aguentava mais aquilo. Já havia um mês que toda aquela situação constrangedora durava. Era horrível tudo aquilo. E porque ele passava por isso? Porque se permitia ao ridículo?
Chegou a uma cabine telefônica disponível e quase avançou sobre a mesma, não sem antes olhar para todos os lados e ver se ninguém o observava ou algo do tipo. Notou que um varão o olhava até com certo ar de deboche, contudo, este homem aparentava estar muito longe da realidade, demonstrava um nervosismo maior que o dele.
Pegou o telefone e com as mãos trêmulas discou alguns números. Ouviu-se o som de espera natural dos telefones e logo uma voz sensual atendendo:
- Alô?
- Oi. Já fiz o que me pediu...
Do outro lado da linha se ouviu uma risada feminina se deliciando com aquelas palavras.
- Excelente trabalho meu querido. Volte para cá imediatamente.
Itamar desligou o telefone naquele instante e ficou fitando o vazio. Porque aquilo com ele? Ele, sempre tão prudente!
Saiu apressado da cabine e tomou seu caminho, rumo a uma casinha numa rua escondida, ao lado de uma escola, num bairro tão movimentado, mas ainda sim tão apagado, que maior descrição não haveria...
Poupá-los-ei de descrever todo o trajeto e dos pensamentos desse rapaz, por conta disso, pulemos um pouco na história e chegamos ao momento em que ele chega a essa casa, na Rua Canção dos Olhos...
Ao entrar naquela casa, o jovem sentiu uma vertigem. Odiava aquele lugar e todas as sensações que aquilo o fizera lembrar.
A mulher que falara com ele ao telefone se encontrava na sala, assistindo a uma entrevista na televisão sem dar muita atenção ao que via. Ao ver Itamar, começou a rir malignamente, mas ainda sim de forma adorável, como só as mulheres sabem fazer, e estendeu a mão a ele.
- Olá querido, senti saudades de você. Você faz tanta falta pra mim...
Itamar por sua vez continha uma raiva desenfreada dentro de si.
- Oh, não vai me responder? Então por favor, vá fazer a janta e não fique parado na minha frente feito um dois de paus...
Ele foi... Com os pensamentos e a raiva a flor da pele. Ele já não aguentava mais aquilo... E pensar que tudo aquilo começara por culpa de sua mãe...
Dona Esmeralda sempre fora uma mulher comum a todos, sem muito que descrever. Sim caro leitor, esta é a mãe de Itamar. Cuidava de sua casa com uma dedicação sobre-humana. Amava seu pequeno filho, apesar de não amar mais o pai do mesmo. Fazia de tudo pelo bem de sua pequena família, e ainda sim toda uma tragédia acontecera...
Adamastor o pai de Itamar, morreu quando ele tinha 17, segundo o rapaz, deveria ter morrido bem antes, e invés de levar ao caixão consigo, deixou para a família uma dívida tremenda em jogos, ao qual fez com que Esmeralda e Itamar fossem a luta para pagar essa dívida.
Venderam imóveis, deram tudo de si, mas a dívida sempre os devorava.
Por sorte, uma amiga de Esmeralda os ajudou, dizendo que só cobraria o valor mais tarde e que a família nem levasse isso em consideração, até porque, amigo de verdade ajuda os outros. E assim, a família se viu livre de um fardo imensurável, ou pensaram que assim seria...
Esmeralda morreu quando Itamar tinha 28 anos, e quando este completara 29, a mulher como num passe de mágica, retornou e voltou a atormentá-lo pedindo seu dinheiro de volta. Ele sem saber o que fazer, até porque nunca fora criado para viver uma situação daquelas, resolveu se tornar criado da moça, que não era tão mais velha que ele.
Assim sucedeu, e agora eis o tempo presente desta narrativa, onde Itamar não aguenta mais se sujeitar as ordens dessa mulher, que sempre pede coisas absurdas dele, que sempre quando possível o humilha e adora fazer isso.
Itamar por toda sua vida foi um assustado, acuado e nunca sabendo o que fazer, mas agora isso era diferente... Se tivesse lido Crime e Castigo de Dostoievski, caberia que era um reflexo de Raskolnikov, o personagem principal da trama, que vivia um duelo interior com ele mesmo.
Estava cogitando matar ou não a mulher. Mas sempre duvidava em conseguir tal coisa, porém já não aguentava mais aquilo. O que fazer e tal situação? Matar ou ser humilhado? Ele não sabia, só sabia que algo deveria ser feito...
Esperou a noite cair, arrumou a cama da mulher para que esta fosse dormir, e como costumeiro, fez uma massagem nela para que ela dormisse. Saiu do quarto e esperou do lado de fora.
Seus devaneios o levavam longe, estava em crise, estava em confusão. Sempre fora medroso, e agora iria se tornar um valente que luta pelos seus direitos a liberdade? Nem ele sabia qual a resposta.
Pensou, e pensou por uma hora, até que pode ouvir o leve roncar da mulher.
Itamar adentrou na penumbra daquele quarto. A mulher era esbelta, bela, e parecia um anjo dormindo. Aquela boca voluptuosa, aqueles olhos fechados que mesmo assim pareciam flechas a ferir o rapaz. Ele se aproximou da cama e ficou diante da mulher fitando a mesma, sem saber o que fazer. Sua cabeça doía, seu corpo tremia, e algo em seu peito parecia que iria explodir a qualquer momento. Ele queria, mas ao mesmo tempo não queria. Fechou os olhos por um momento. Quando os abriu um breu o envolveu...
Quando a visão voltou a si, viu a mulher se debatendo, e ele com um travesseiro sobre o rosto da mesma. Ele colocava toda a sua força naquilo, uma força que nem ele mesmo sabia que nutria dentro de si. A mulher parecia estar em uma cadeira elétrica, se balançava convulsivamente, e também aparentava ter uma força monstruosa; Era uma luta pela vida, qual dos dois que vencesse sairia com a liberdade em mãos. Era uma luta sem voltas. Até que houve um suspiro.
O jovem caiu no chão, respirando de forma ofegante. A mulher por sua vez parou de se balançar, o fôlego de vida se esvaiu dela, e a morte se tornara o melhor amigo dela, a levando para longe.
É esse o fim? Itamar vencera? Ou este fora o princípio de suas dores? Quem é que sabe? Essa e muitas outras respostas, só virão com o futuro. E este, a Deus pertence...
