quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Conto

Demorou, mas chegou =D


Fim



         Ela se olhava em frente ao espelho. Aquelas fantásticas e esbeltas silhuetas, aquele olhar esverdeado, com cílios grandes e chamativos, boca grande e voluptuosa, com dentes branquíssimos, nariz arredondado, mas pequeno, singelo, e não chamativo, se encaixando perfeitamente naquele rosto, de cabelos loiros cacheados, nem tão ao céu, nem tão ao inferno, se é que me entendem, ou seja, nem tão liso, nem tão cacheado, perfeito; Mulher bela, que se olhava no espelho. Mas odiava o que via.

         Seu olhar era frio, calculista, meticuloso, contudo apesar dos olhares mais atentos para ela, não notariam a tristeza dentro dela, uma tristeza que ia a corroendo, e a destruindo naquele simplório olhar ao espelho.

         Ficou ali por horas, aparentava gostar de se alto mutilar, pois apesar do olhar e da posição em que ela se encontrava ser o mesmo desde que começara a ver seu corpo no espelho, sentia algo dentro dela a consumindo.

         Estava assentada em um singular pufe, mas depois de certo tempo se ergueu dali e fora a uma pequena mesinha, fixada na parede. Pegou um caderno, uma caneta e a única cadeira que havia naquele local. Prostrou-se sobre a mesa e começou a escrever copiosamente.

         O lugar que ela se encontrava era em um quarto de hotel pequeno, desses que se paga pouco, mal iluminado, com as paredes dum amarelo desgastado e desbotado, com um piso da cor ocre, criando no local um ambiente fúnebre, similar a uma cova. Não há muito mais o que descrever, pois no quarto só havia uma janela, entretanto era tarde, e já escurecia, como dito a iluminação era precária, e a luz naquele momento não se encontrava acessa, um ambiente perfeito para o fim...

         O nome desta mulher é Cristina... Ela escreveu uma carta e deixou em cima da mesa. Foi até uma caixa de roupas que havia naquele pequeno quarto e pegou a sua veste mais bonita: um vestido longo azul, com pedras de similares a cristal. Vestiu-se. Foi até a janela, aparentava estar entorpecida em algo desconhecido pela ciência, desconhecido pela religião, ou até mesmo da filosofia. Ao chegar a janela olhou para a rua, estava no sétimo andar. Olhou a rua, mas não viu nada, a não ser o vento que soprava em seu ouvido a palavra “Venha!”, e sem perceber, se lançou da janela.

         Uma hora após isto, várias viaturas se encontravam em frente aquele prédio, e, além disso, várias emissoras de TV, eles transmitiam ao vivo os relatos que iam recebendo, aquilo era algo surpreendente.

         - Olá a todos vocês, eu sou Marcos Aguillar. – Dizia um dos repórteres em uma transmissão ao vivo. -... E estamos aqui no prédio Maravilha, situado na Rua Tuiuti, Tatuapé, Zona Leste, onde a modelo Cristina Sampaio, famosa por desfilar para várias marcas grandes, foi encontrada morta, por um dos moradores, e ao que tudo indica, ela se lançou de um dos quartos. O dono do prédio, Estevão Almirante, diz que pelos registros, ela pagou somente uma diária para o dia de hoje. Isto é realmente algo chocante, e estamos recebendo novas informações, de que ela deixou uma carta de despedida, e só aqui vocês caros telespectadores, e você Márcio (o apresentador do telejornal sensacionalista), saberão em primeira mão o conteúdo desta carta... Daqui a uns cinco minutos terei acesso a essa carta.

         Realmente, depois de passados cinco minutos, Marcos voltou ao ar, e começou a ler a seguinte carta:



         Eu sou Cristina Sampaio, tenho 26 anos, nascida em São Sebastião, e atualmente moro em São Paulo. Escrevo essa carta para provar que ninguém teve influência em minha morte a não ser eu mesma. Sim, estou prestes a me matar e o motivo que me leva a isso logo será de conhecimento de todos aqueles que tiverem acesso a essa carta.

         Sei que estou no auge da minha carreira, também sei que sou belíssima aos olhos de todos, mas ninguém passa pelo que eu passo, vive o que eu vivo, e sofre o que eu sofro; E definitivamente, eu desisto de lutar para ser feliz.

         Sabe, viver o tempo todo cheia de regras, sendo podada, obedecendo a um controle para ficar bonita para as pessoas. Eu nunca me achei bonita, de verdade, até porque ser magra que dói não é status de beleza nenhuma. Eu me tornei uma mulher cadavérica, uma espécie de zumbi viva, e ainda mais quando me encontro maquiada aos desfiles, horrível.

         Cansei de sofrer também para prover o alimento da minha família. Eu sempre quis vê-los felizes, mas eles me fazerem de escrava e da provedora do lar é algo realmente constrangedor pra mim.

         Sempre tive o sonho de ser amada, e isso nunca aconteceu, pois o dinheiro que ganho só faz com que as pessoas me vejam como um objeto de lucro e de beleza, não como uma garota simples, humilde e que o seu maior sonho é ser amada.

         Desisto de viver essa vida medíocre da qual vivo. Espero que compreendam, mas se não me entenderem, só quero que saibam, vocês erram demais ao julgarem as pessoas, ao acharem que ser bela e cheia de dinheiro é motivo para felicidade. NUNCA em toda a história, dinheiro e beleza foram sinônimos de alegria e realização.

         Espero que vocês saibam o que fazer com esse drama em que muitas pessoas vivem. Espero de coração que esse meu ato resulte em uma conscientização das pessoas, pois eu não morro para sanar os meus problemas, mas para sanar o problema de quem sofre com a sua própria imagem.

         Hoje digo adeus ao mundo, mas creio que esse adeus resultará num reboliço na vida das pessoas...

         Como já dito, sou Cristina Sampaio, e novamente, friso que espero que o meu ato resulte em uma mudança nas vidas das pessoas, e, por favor, você que hoje sofre, saiba: você é fantástica, você é uma pessoa sem igual, em que não é fama e status que vai dizer o que você é...”



         Estas foram às palavras dela, todavia eu vos pergunto: até quando esse grito interno na vida de pessoas continuará acontecendo? Ademais, meditem, pois a desgraça anda ao lado de quem procura ser feliz...

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