quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Conto


Depois de Ontem


            Acordara em torno das 15h, seus olhos não abriram direito. Seu corpo não havia descansado o suficiente para compensar a noitada que tivera anteriormente. A festa fora um sucesso. Só os resultados do dia seguinte é que entristeciam, porém, é normal no outro dia se estar mal, não é mesmo leitores?
            Pisara no chão. Seu corpo estava pesado, puxava-a para a cama, mas sua mãe há tempos estava lhe chamando para que acordasse. Caminhou a passos lentos pelo quarto, se assemelhava a um ser em transe, ou um alguém automatizado. A uma lentidão tamanha, chegou até o botão que acendia a luz de seu quarto e o acendeu. Um quarto de piso negro, paredes rosa com alguns desenhos de flores nelas, uma cômoda cheia de maquiagens em cima e um espelho, enfim, um quarto de garota. Andou até sua cama e jogou seu corpo, sentando-se aos pés desta, ficando de frente para seu guarda-roupa de cor marrom escura, com um espelho diante de si.
            A primeira coisa que notara em si, era os olhos fundos, de uma “noite” mal dormida, mas talvez bem vivida. Depois notara o cabelo todo mal arrumado, normal para quem acaba de acordar. Depois notara que seu corpo inteiro estava doendo, e principalmente, sua cabeça latejava, similar ao badalo do sino da Catedral da Sé.
            Estava tão sonolenta que não conseguia se importar com isso, a não ser com as dores, porém com seu estado lamentável, isso ela ignorava com maestria. Uma maestria comum em sua vida.
            Tentou em primeiro momento lembrar-se da noite anterior.  A festa da amiga. Festa tão aguardada, tão desejada e tão bem aproveitada... Mas ela não se lembrava de tudo...
            Tentou recapitular o que havia acontecido na madrugada anterior. O badalar de sua cabeça soou mais forte. Fechou os olhos com força. Abriu-os novamente, devagar, os olhos se adaptando a luz, coisa que acontece, geralmente, no reino animal. Sua memória colaborou e lhe desenhou a imagem dela chegando à festa: a camisa jeans, com detalhezinhos pontiagudos, da cor prata, na gola, uma calça jeans mais escura e seu vans preto, que ela tanto o amava. Maquiagem singela, lápis de olho preto, um pouco de base. Sim, sempre lhe caia muito bem, todos os adereços, a pulseira dourada no braço, o brinco pequenino que não chama a atenção, um batom rosa claro em seus lábios pequeninos, mas chamativos, justamente por serem pequenos e carnudos, algo em que faz os adolescentes da sua faixa etária sonharem em se tornarem canibais e devorá-los, não ao pé da letra, pelo amor do nosso Senhor, bom Cristo.
            Lembrou-se do seu riso, da falsa imagem de feliz que passara a todos, da falsa imagem de que estava satisfeita com a vida, quando pelo contrário, abominava-a, mas isto nem vem ao caso. Com seu riso, sua mente teceu, lhe recordando da ansiedade em que estava para a festa, rever tantos amigos que há tempos não os viam... Amigos falsos, é bem verdade, mas quem liga pra isso? Acudiam na hora de esquecer de tudo, então... Eram amigos, por pior que fossem, por mais falsos e malignos que fossem, estariam lá, de braços abertos, falando que a amava, que sentiam falta dela, sim, tudo uma farsa, mas ela gostava das mentiras deles, mesmo sendo mentira, na hora lhe acolhia e fazia seu peito ficar tranquilo e ter um esboço do que é ser “feliz”.  Sim, eles iriam pra lá, e visualizou-os, enquanto se lembrava, deles na festa. Como eram idiotas, piadas porcas, mas engraçadas, indiretas dos garotos querendo o corpo dela, que ela fugia com sensibilidade, dando risada, e em alguns momentos eram até bem humorados mesmo. Ela se recordou destas coisinhas, e também do seu primeiro copo...
            Fora um copo de vodca com energético, fraco, como sempre fazia. Começar com bebidas leves, essa era a sua conduta, conduta para não ficar louca de uma vez nem dar pt rapidamente.
            Com o primeiro copo, vinha também o narguilé que ela tanto gosta. A essência, a fumaça presa em sua boca. Sim leitores, as coisas estavam ficando claras, até o momento é claro, em verdade, em verdade, ela desses momentos não havia se esquecido, somente do que virá depois. Bebidas, amigos chegando, festa rolando solta, era tudo uma maravilha...
            Ela tinha por hábito beber para esquecer-se das coisas, das coisas que lhe incomodavam, que lhe inquietavam, a menina que tentava viver de fato o carpe diem, porém não conhecia o sentido da frase em sua origem, lá com os árcades, enfim, bebeu, e gostava disso. Viveu, como se a vida só valesse a pena naquele instante. Os amigos ajudavam nisso, lhe ofereciam mais bebidas, e lá ia ela, colocando tudo garganta a dentro, fumando tudo que lhe davam, na realidade, ela que solicitava.
            Se recordava bem disso, mas pouco a pouco essas memórias com o passar da noite iam se tornando mais nebulosos, pois estava ficando alta, e quando assim ficava, se esquecia das coisas, não raciocinava direito, colocava mais e mais para dentro, apenas.
            Sua cabeça começou a doer, pelo simples fato dela tentar forçar sua mente a se lembrar dessas partes “nebulosas” da madrugada anterior. Doera sim, mas cessara, trazendo novas figuras: Um amigo, um troglodita gorducho, inchado dos pés a cabeça, que lhe abraçava com brutalidade. Ambos estavam bêbados já, fedendo as bebidas consumidas, ao narguilé e cigarros ingeridos, mas isso não importava, estavam rindo. O gordo mal se importava com ela, mas e daí? Era festa, e em festa, é como carnaval, todos colocam uma máscara e vão se divertir... Enfim, ele a apertava, ela ria, porém tentava sair dos braços dele, estava machucando, ela clamava em meio ao seu riso alto para que ele a soltasse, ele grunhia como bicho, e ela ria mais. Outro amigo chegara para acolher, outro bêbado, puxou as pernas dela. Ela agora em frente ao espelho via as marcas roxeadas do abraço de um, e do apoio fornecido pelo outro para livrá-lo do primeiro. Seu coração se apertou nesse instante ao se lembrar disso. Ela, a garota que tanto criticava as outras pelas ações toscas dela, estava lá fazendo isso. Ela, com seus quinze para dezesseis anos, fazendo uma cena dessa, uma cena que ela não se orgulharia que seus pais vissem, que seus mais chegados amigos, e estes mais velhos, vissem. Se envergonhou de si mesma. Envergonhou-se, por tentar fugir sabe-se lá do que... Ou sabia...
            Sua mente lhe lançou um inside e ela viu a figura do garoto que ama... Ele a olhava com olhar sério diante da cena descrita anteriormente, e o balançar de sua cabeça, negativamente, recusando-se a aceitar o que acabara de ver.
            Isso apertou o coração dela, viu seus olhos se comprimirem por um instante, encherem-se do líquido incolor com gosto de soro fisiológico, mas não o colocou para fora, também não o reteve, apenas manteve-se do jeito que estava.
            Havia um peso sobre ela, um peso que queria apagar de si, mas tentara apagar algo na noite anterior e fizera essa dor vir no tempo que chamamos de presente, que na verdade já é passado... Se aquietou, mas o coração fazia um barulho alto, o corpo em inércia, o coração em uma constante cada vez mais rápido.
            Sua mente, resolveu pregar-lhe uma peça e lhe fez voltar a festa, ao fim dela. Após ter visto o olhar do garoto que amava, ela se pôs a beber mais, ficando mais alta ainda, chegando a mal se manter em pé, porém ainda falar que era normal aquilo... Era o fim da festa, ela o viu indo embora, chamou-o, ele parou e virou-se... Ela foi até ele, sorridente, feito uma idiota, porém seu rosto quando bebe fica igual o de quem quer chorar. Uma bêbada com cara de quem chorava de alegria será? Quem sabe? Foi até ele, mas ele ao vê-la naquele estado, se desvencilhou dos braços que ela lhe estendera, recuara e foi-se embora.
            Tal lembrança doeu ainda mais no ser dessa moça, começou a chorar e a frase que o garoto proferiu quando se afastou dela, foi o rompente das lágrimas: Não é essa a garota que eu acho linda, essa é outra, muito parecida, mas sem a essência daquela que tem o sorriso perfeito, daquela que me faz feliz por simplesmente estar perto de mim... Passar bem.
            Ela chorava por saber que ele fora embora por ela ter assumido outra personalidade, talvez a sua verdadeira, quem é que o sabe? A personalidade da garota jovem que gosta de beber, que gosta de estar com gente “errada” , que gosta de ser uma sem beber e outra quando bebe, que bebe pra fugir...
            Ela queria fugir de tudo isso novamente, se olhava no espelho e se achava um lixo... Ficou chorando, mas em silêncio, até que se lembrou, que dali a cinco dias, haveria uma festa.

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