terça-feira, 18 de outubro de 2011

Conto

Telespectador



- E esse foi mais um plantão ao vivo do jornal “A vida como ela é”. Eu sou Marcos Aguillar e, é com você Marcos...

         Ouvira o costumeiro “corta” do câmera. Soltou pesadamente um suspiro e sorriu como sempre fazia, ouviu do câmera um “ficou ótimo” e se preparou rapidamente para tomar o rumo de sua casa.

         Colocou seu suéter de cor marrom com detalhes em azul marinho e adentrou em seu carro, um FOX preto.

         Dirigia pela cidade, ouvindo a rádio Nova Brasil, ouvindo o som da música “Primeiros Erros” do Capital Inicial. Seu maior desejo naquela hora era chegar a casa e ser ele mesmo.

         Perdão jovens leitores, mas hoje minha mente insana me tem levado a lugares inimagináveis, por isso, esta história não será tão racional como costumeiramente. Porém, tentar-me-ei ser o mais verossímil possível para o bem de todos...

         Adentrou em sua casa na Zona Sul, com um andar calmo, tranquilo. Foi andando sobre o chão de madeira, naquela casa vazia, ouvindo somente o som de seus passos. A casa estava escurecida, contudo Marcos conhecia aquele lugar com a palma de sua mão, era seu aconchego. Ou seu desespero? Seu inferno? Enfim... Foi até seu quarto, acendeu a luz do mesmo, viu sua cama de casal, grande e forrada de um edredom branco. Se sentou ali.

         Ficou olhando para o teto perdido em suas próprias ideias tolas e imperfeitas. Ideias mal modelada que a todo o momento sofria alteração para um novo pensamento. Ele sabia que era um homem perdido e se agradava disso. Até porque sua bússola tinha se perdido...

         Ao olhar para a parede a sua frente, contemplou uma televisão de 42 polegadas da Semp Toshiba, tela plana, fixa na parede, e acima desta um quadro...

         O quadro era belíssimo, de uma beleza surreal, grande, vistoso, brilhava pelo vidro que o protegia.

         Era a foto de uma menina com uma mulher. Ambas se abraçavam e sorriam. A mulher tinha um sorriso perfeito, um cabelo cacheado negro, uma pele branca de olhos esverdeados. Usava uma blusa vermelha e seus braços cobriam o pequeno corpo da garota. Esta por sua vez, sorria tanto que seus olhos estavam fechados, com as covinhas das maças do rosto expostas, marca esta, herdada do pai. Era linda, cabelo curto, cacheado como o da mãe, usava uma blusa rosa da Hello Kity. Ou talvez, seja o inverso disto.

         Marcos ficou a contemplar aquelas duas estampadas naquele quadro, ambas de beleza estonteante, envolventes, ao mesmo tempo simples e fatais; Ele ficou ali, até que ela adentrou...

         Ele sabia que ela estava para chegar. Era a sua amiga de longa data, sempre estava com ele. Ela entrou a passos lentos, sem fazer barulho como sempre. Fora se aproximando dele, encostando sua cabeça no ombro do varão, o envolvendo com seus braços finos e fortes.

         Tenho plena certeza que todos a conhecem. Já a viram, já a sentiram. E sem dúvidas, a odeiam. Mas com toda a certeza é ela quem faz o homem. Esse ser do qual vos fala, que agora está diante de Marcos é denominada “DOR”, contudo para muitos é tida como “consolo” ou algo assim.

         Ele ficou imóvel como sempre, enquanto ela o prendia. Ela o amava, ele a completava e ela jamais gostou tanto assim de um ser como ele.

         Ela sussurrava no ouvido do mesmo “elas já foram, fique comigo” e ele sem forças se entrega. Ou talvez lutasse contra, mas de forma estática?

         É difícil de entender o porquê de alguém sofrer e não lutar para sair disso. Na realidade, às vezes, na maioria dos casos, eles lutam, mas duma forma que a ciência nem a razão conseguem explicar. Esse é Marcos, um tolo que mesmo tendo tudo, perdeu tudo, e sua única companheira é a Dor, perfeita, que nunca apontou o dedo na cara dele para culpa-lo como todos faziam, contudo ela o abraça, o envolve com seu ser pacífico.

         Ele já era um discípulo de Schopenhauer, após ter feito o que fez, deixou de acreditar em todo e qualquer ser humano.

         Retratou a morte daquela garota com tanta naturalidade. Porém na volta para casa se lembrou do incidente que acontecerá com ele e sua família e teve mais ódio ainda da humanidade, mais ódio de si. Ou, só quisesse que alguém o ajudasse da forma correta!

         A Dor o apertou mais fundo e beijou seu rosto, enquanto as suas esperanças se esvaiam. Estava preso na caverna, a mesma da qual Platão mencionara em sua alegoria da caverna. Mas diferente dos homens daquela alegoria, ele sabia que havia um mundo fora da caverna, só não sabia como fugir de sua prisão...
            Ele se tornou telespectador de sua própria derrota. E ao seu lado, estava sua eterna companheira: a Dor!

         Marcos, um derrotado! Um vitorioso! Um alguém que só espera chegar a sua vez de partir desta terra, pois sabe que sua vida não tem importância alguma... Ou que tem tanta importância que já não vale mais nada...

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