sábado, 21 de abril de 2012

História


Ser



Com seu cachimbo, assentado sobre a varanda de sua casa em uma cadeira de balanço, ele com a pouca força de seus pés – que já mal aguentavam o peso de seu corpo, que não era lá esses pesos, o que denominamos de “normal” -, empurra seu corpo para trás e fica a balançar lentamente, colocando e tirando o cachimbo, soltando fumaça sucessivamente.

Sua mente não para. E eis uma dádiva da vida: tudo pode parar, mas a mente, esta mesmo dormindo já não descansa, todavia lhe lança sonhos como lembretes duma realidade que se almeja ser vivida ou ser evitada.

Mas Teodoro era velho... Tinha vivido tempos de glória, é bem sabido, contudo agora, era um caquético, um morfético, onde esperar ali, naquele lugar, pelo fim, era uma benção imensurável e a única esperança que ele encontrava...

Porém meus caros permitam ao velho sonhar. Se entregar a simplicidade, ao que é pleno, ao que a ciência não explica por meio de seus termos acadêmicos, e assuntos dos quais, por mais que a academia contemple, nunca irá conseguir entendê-lo ao todo por meio dessa razão pequena...

Balançava, soltava a sua fumaça, e olhava as crianças brincarem na rua. Já fora num passado não tão distante, o velho que furava as bolas dos pequenos, que ficava nervoso pela gritaria daquele pandemônio de miniaturas, mas tudo mudará... No dia em que ele viu Clementino, o garoto de chinelas surradas de tanto correr na rua, de pais separados, que fora esquecido pelo Destino, abandonado pelo Porvir, isolado da sociedade, de cara suja, de medo no peito, mas de coragem na fala.

Se conheceram por acaso, ou não, a bola do pequeno cairá na casa do velho, e Clementino pulara o portão do ancião para pegar o objeto redondo. O velho também saiu ao encalço da bola e ai ouve o encontro...

Gritos do velho, olhar trêmulo da criança. Urros, as crianças se aglomerando no portão do senhor, as velhas fofoqueiras aparecendo em suas janelas aos bolos.

- Peste de criança! Isso dá cadeia! Dá cadeia! – Urrava o velho, quase que perdendo os sentidos.

- Desculpe. Desculpe. Desculpe. – Sussurrava Clementino, tendo sua voz abafada pelo gritos do outro.

E a cena ficou assim, até que o garoto se aproxima do velho esbarrando no mesmo falando com uma voz embargada, calando  o velho por alguns instantes:

- Desculpe... Eu só queria rir um pouco. Essa bola é o que eu tenho. Foi meu pai quem deu ela, e ele se mudou... Ele sumiu, me deixou. Ela é igual uma foto pra mim do rosto do meu pai, é tudo o que eu tenho dele. Minha mãe já não liga pra mim porque arranjou um namorado melhor que eu... E essa bola, mais os meus amigos, é o que faz eu sorrir e esquecer um pouco de tudo o que acontece na minha vida...

“Eu só queria rir um pouco” Teodoro foi fisgado por isso: há quanto tempo não ria? Há quanto tempo só via a vida com os olhos de um pré-defunto? Desse dia em diante, ele mudou... Ele deixou de ser um morto, e voltou a ser um “SER” que ama viver, que ama rir, que ama ser...