Ser
Com seu cachimbo, assentado sobre a
varanda de sua casa em uma cadeira de balanço, ele com a pouca força de seus
pés – que já mal aguentavam o peso de seu corpo, que não era lá esses pesos, o
que denominamos de “normal” -, empurra seu corpo para trás e fica a balançar
lentamente, colocando e tirando o cachimbo, soltando fumaça sucessivamente.
Sua mente não para. E eis uma dádiva da
vida: tudo pode parar, mas a mente, esta mesmo dormindo já não descansa,
todavia lhe lança sonhos como lembretes duma realidade que se almeja ser vivida
ou ser evitada.
Mas Teodoro era velho... Tinha vivido
tempos de glória, é bem sabido, contudo agora, era um caquético, um morfético,
onde esperar ali, naquele lugar, pelo fim, era uma benção imensurável e a única
esperança que ele encontrava...
Porém meus caros permitam ao velho
sonhar. Se entregar a simplicidade, ao que é pleno, ao que a ciência não
explica por meio de seus termos acadêmicos, e assuntos dos quais, por mais que
a academia contemple, nunca irá conseguir entendê-lo ao todo por meio dessa
razão pequena...
Balançava, soltava a sua fumaça, e olhava
as crianças brincarem na rua. Já fora num passado não tão distante, o velho que
furava as bolas dos pequenos, que ficava nervoso pela gritaria daquele pandemônio
de miniaturas, mas tudo mudará... No dia em que ele viu Clementino, o garoto de
chinelas surradas de tanto correr na rua, de pais separados, que fora esquecido
pelo Destino, abandonado pelo Porvir, isolado da sociedade, de cara suja, de
medo no peito, mas de coragem na fala.
Se conheceram por acaso, ou não, a bola
do pequeno cairá na casa do velho, e Clementino pulara o portão do ancião para
pegar o objeto redondo. O velho também saiu ao encalço da bola e ai ouve o
encontro...
Gritos do velho, olhar trêmulo da
criança. Urros, as crianças se aglomerando no portão do senhor, as velhas
fofoqueiras aparecendo em suas janelas aos bolos.
- Peste de criança! Isso dá cadeia! Dá
cadeia! – Urrava o velho, quase que perdendo os sentidos.
- Desculpe. Desculpe. Desculpe. – Sussurrava
Clementino, tendo sua voz abafada pelo gritos do outro.
E a cena ficou assim, até que o garoto se
aproxima do velho esbarrando no mesmo falando com uma voz embargada,
calando o velho por alguns instantes:
- Desculpe... Eu só queria rir um pouco.
Essa bola é o que eu tenho. Foi meu pai quem deu ela, e ele se mudou... Ele
sumiu, me deixou. Ela é igual uma foto pra mim do rosto do meu pai, é tudo o
que eu tenho dele. Minha mãe já não liga pra mim porque arranjou um namorado
melhor que eu... E essa bola, mais os meus amigos, é o que faz eu sorrir e
esquecer um pouco de tudo o que acontece na minha vida...
“Eu só queria rir um pouco” Teodoro foi
fisgado por isso: há quanto tempo não ria? Há quanto tempo só via a vida com os
olhos de um pré-defunto? Desse dia em diante, ele mudou... Ele deixou de ser um
morto, e voltou a ser um “SER” que ama viver, que ama rir, que ama ser...
