Rebelde
Arthur estava assentado na carteira onde habitualmente se assenta – quando não cabula às aulas-, com os pés sobre a cadeira onde assenta normalmente. Era aula vaga, e ele aproveitara aquele momento para fazer aquilo que gostava: fumar.
Sim, ele estava fazendo algo que em escola não pode, contudo era aula vaga, não tinha professor na sala de aula, enfim, ele é dono do seu nariz, ou é assim que ele pensa. Coisa dos jovens de 17 anos.
Por ter um estilo de roqueiro, ala todo preto, e ser um garoto, digamos que, formoso aos olhos das garotas, vivia rodeado de pessoas. Não que ele se importasse com isso, pelo contrário, ele não se importava com nenhuma delas, pois sabia que elas estavam com ele por conta do que ele tinha a oferecer.
Ele sabia quem estava com ele por gostar realmente da pessoa dele.
Estava fumando, como já dito. Deu uma tragada, sentiu a fumaça entrando pra dentro dele, indo a uma velocidade considerável até seu pulmão e voltando pra que ele soltasse pra cima aquela fumaça. Era um gosto bom, se não fosse porque haveria os viciados nisso? Arthur também gostava da fumaça, ela era tão simples, mas fazia formatos tão interessantes quando soltas. Eram suaves, pareciam dançar no ar. Ele gostava disso.
Estava de costas para a lousa, seus pseudo-amigos conversavam euforicamente falando das garotas “pegáveis” da escola, num papo tão acalorado que a censura ali seria para maiores de 21 anos.
Entretanto Arthur não ligava pra isso, olhava com desdém para todos a sua volta, se sentia só, e no fundo era isso mesmo o que acontecia, mas ele não ligava pra isso também. O único momento que seu olhar ganhava uma nova forma era quando erguia sua cabeça e soltava a fumaça, vendo-a bailar sobre o ar, seu olhar ganhava um “q” de tédio mortal, ele só queria ser aquela fumaça, pra bailar sobre o ar um pouco, indiferente a tudo, até mesmo ao vendo que era seu opressor, e depois sumia, pra nunca mais ser visto novamente. Uma vida passageira, sem sofrimento, mas que proporciona alegria aqueles que fazem uso do artefato que a produzem.
A aula sem professor já estava na metade, quando alguém o cutuca, e já sai soltando uma rajada de palavras:
- Ei, quem você pensa que é pra ficar fumando aqui dentro da sala? Acha que é alguém importante? O Bonitão do pedaço? Faça o favor de se por no seu lugar menino.
A sala toda se aquietou para ver a discussão. Quem cutucara Arthur era Samantha a aluna que senta na frente, sim aquela que humilhava os outros no conhecimento das coisas, mas no de mundo sabia pouco, ou o que os outros falavam.
O jovem por sua vez, colocou seu cigarro na boca e prosseguiu nessa sequência como se nada tivesse acontecido, provocando o riso de alguns que se assentavam no fundo. Ah, um detalhe não tão importante, mas que vale acrescentar é que Arthur se assentava no meio da classe, aonde os olhos dos professores nem sempre chega devido aos outros que o cobrem.
- Você acha que isso faz bem pra você? – Insiste a garota, com cara de enfezada. Tadinha, cara chokito, cheia de espinhas.
Dessa vez, ele tirou o cigarro da boca, soprou a fumaça e disse com voz cansada:
- Não sei, falam por ai que não faz bem, eu necessariamente não me sinto mal por fumar, pelo contrário, eu gosto disso!
- Mas aqui é lugar pra fumar? – Insiste a garota com a cara vermelha de raiva.
- E tem lugar específico pra isso? Ah é... Aqui é o lugar específico pra ser chato igual você, não pra fumar... Entendi, desculpe.
- Como você é idiota garoto!
- Ah é? – Nessa hora ele se vira colocando o cigarro na boca, e imediatamente tirando-o e soltando aquele esfumaçado da cor cinza sobre a face da pequena. – Bom, eu nunca lhe julguei, nunca falei um A sobre a sua pessoa. Posso até pensar, e penso, penso sobre todos, mas não me pronuncio sobre nada, o mínimo que você poderia fazer é ficar no seu canto, quieta lá, lendo a bosta do seu livro que ninguém se importa com isso.
- Garoto sem educação você!
- Não... Só não sou o idiota que você pensa. E eu já passei por tanta coisa, que educação pra mim seria um luxo, gastá-la com quem não me convém, não serve, não presta e não me faz bem. Você não sabe de onde eu vim, o que eu passei, o que eu vivi, não deveria sair me julgando dessa forma tola da qual você tem feito ferrenhamente. Eu posso cabular muitas aulas, eu posso não entender nada de Matemática e essa merda toda, mas eu sei da vida, eu também sei palavras bonitas, não é porque eu não sento na frente que eu sou burro, não é porque eu fumo que eu sou idiota. Idiota é questão de escolha: é idiota aquele que deseja ou apenas ouvi essas palavras ridículas que saem da sua boca. Faça-me o favor, ou melhor, faça o favor a todos e volte a ler o seu livro, que eu também vou sair dessa bosta!
A sala toda se aquietou, vendo a profundidade das palavras do “roqueiro”, enquanto este se levanta apagando seu cigarro sobre sua carteira, deixando o mesmo sobre lá e saindo da sala, tomando seu caminho...
